No início sentia-me perdida, vazia, cheia de problemas. Pensava várias vezes em pôr fim à vida, sem dar conta, o meu pensamento lá estava, e detalhava formas de pôr fim ao meu sofrimento. Mas de todas as vezes que me tentei matar, nenhuma me marcou como a última.
Porque anteriormente pensava no assunto, e mesmo que concretizasse pedia ajuda logo de
seguida, porque não queria mesmo morrer. Se fosse capaz de ser verdadeira, diria que só não conseguia lidar com as dificuldades da vida, pois pareciam avassaladoras. Mas quando um dia acordei e sem me dar conta, tomei mesmo demasiados comprimidos e me deitei à espera
da morte, só acordei do “transe” quando senti o coração a descompensar: ora acelarava, ora pousava e apanhei o maior susto. Ia morrer e já não podia fazer nada. Liguei para o 112 e disseram-me que não viriam, que eu só queria chamar a atenção, eu já mal conseguia andar de tão fraca me sentir. Mandaram-me beber água com sal e vomitar. Para isso tinha de subir
as escadas e chegar à cozinha, mas mal conseguia andar. queria tanto chegar lá, o medo dominou-me, assustada e quase sem esperança de sobreviver arrastei-me escada acima até à cozinha, peguei num copo pus uma mão cheia de sal num copo de água e bebi. Arrastei-me então até à casa de banho e sem vontade de vomitar pus os dedos à garganta, mas fechei os
olhos e vomitei, nem sabia que mais tarde me iam perguntar se tinha vomitado os
comprimidos todos. Não tinha como saber porque fechara os olhos. A ambulância acabou por chegar, mais tarde eu já nem conseguia fechar a porta de casa.
O meu corpo estava hipersensível, as enfermeiras tentavam encontrar uma veia sem conseguirem, cada tentativa doía-me horrores, nunca tinha experimentado tanta dor. Depois puseram-me o tubo no nariz até ao estômago. A impressão na garganta era imensa, custava-me respirar, e fiquei horas e horas com o tubo.
Ninguém falava comigo, estava ali deitada no SO sem saber o que me ia acontecer.
Mais tarde vieram as psiquiatras falar comigo, contei-lhes como tenho uma filha, que na altura se cortava e já se estava a cortar na escola, que não queria viver e eu não sabia como ajudá-la. Como tinha um marido com quem não conseguia dialogar e como o trabalho estava
a correr tão mal. Parecia que nada na minha vida corria bem, e que eu não tinha controle sobre nada.
Fui internada na psiquiatria e foi o melhor que me aconteceu. Sempre que me vinham ideias suicidas falava com as enfermeiras, que me ajudaram muito. A rotina e o estar fora do meu ambiente também me ajudaram a descansar. O ajuste da medicação foi também indispensável. Depois de sair do internamento estava tudo na mesma, com o acréscimo do problema de ser despedida, no entanto estou mais forte e com capacidade para lidar com os problemas e ultrapassar as frustrações.
25/1/2022
a.c.