Testemunhos

Testemunho sobre o distúrbio das crises de pânico

Sou uma mulher que aparentemente viveu a sua vida numa normalidade comedida.

Tenho 47 anos e há sensivelmente 30 anos, tinha eu 17, o percurso escolhido, que pensava ser certo, sofreu alterações irreversíveis , marcas indeléveis. O importante é que o saldo foi positivo, arrependo-me mais das coisas que não fiz, mato instantaneamente esse pensamento com o que ainda poderei fazer.

Não vale a pena dramatizar, esta ideia acompanha-me diariamente.

Sorri, ao escrever distúrbio, porque é muito mais do que isso, é  incomensuravelmente desmedido , como uma dor acutilante que se instala e fica sem ser convidada.

Há 17 anos, andava ligeiramente desmotivada ou desconcentrada nos estudos, fazia diariamente o percurso do antigo 15, hoje autocarro nº 858.

Já tinha tido várias ameaças de mau estar, mas esta iria marcar-me em definitivo.

Comecei a ficar agitada sem saber porquê, de imediato sobressaltada e assustada. Só conseguia  pensar quero sair daqui, tenho que sair daqui! Comecei a ficar muito nervosa, a cabeça oca, sentia o coração a bater tão depressa que aparecia com o som amplificado ressoando no meu corpo todo , a garganta seca, não conseguia engolir, nem sequer respirar. De repente as pernas tremiam tanto que não percebi como me sustinha em pé. Tentando enxotar estas sensações todas, perdida, perdida era a palavra, começava a  sentir- -me viajar, como se não fosse o meu corpo, eu estava nesta dimensão , estava num mundo paralelo a afogar-me consumida pelo medo, o surreal, o que me está a acontecer..?, as mãos húmidas, a cabeça a latejar, as tonturas. Senti que me estava a morrer , estarei a enlouquecer, que faço? Que faço, SOCORRO!!! Tirem-me daqui…….e tudo isto em simultâneo…..Vou morrer, pára, pára, por favor pára ! Uns minutos pareceram horas e passou.. e eu senti-me despojada de alma . abandonada e vazia, desmembrada e dilacerada, vil e violentemente vilolentada.

Consegui sair do autocarro, trôpega, cansada, como se tivesse feito 3 directas de seguida e atropelada por 4 camiões mais uns tantos comboios….

Uma tristeza infindável apoderou-de de mim e chorei, a chorar , arrastei-me humildemente para o  autocarro de volta a porto seguro.

Não fui direita para casa, afinal tinha faltado às aulas e como o explicaria? Fui ao café ter com um amigo que se esforçou imenso para decifrar a linguagem que usei para explicar o que me tinha acontecido.

À noite tudo me parecia pior , comecei a saber o que é o medo antecipado e era uma tortura chinesa o ritual de deitar….para não dormir e tremer sem controlar o corpo, noites vazias de sono e cansaço.

A vida continua, e dava por mim a entrar nos autocarros e sair a medo logo na paragem seguinte.

Passava as manhãs de Inverno, sentada em bancos de jardim a escrever e padecia de pena profunda de mim própria, com sentimento de solidão, tal como os velhinhos que sentam nos jardins porque nada mais têm para fazer. Eu tinha, tinha que fazer tempo para justificar as minhas faltas às aulas.

Comecei por ir devagar, apanhava autocarros onde havia caras conhecidas, sentia algum conforto.

O mais difícil era deixar os pensamentos fluírem, não! Estava estagnada e parecia um disco riscado, teriam sabotado a minha imaginação juntamente com a essência da minha alma?

Passei a andar sempre acompanhada e assim julguei que resolvia a minha vida. Se as colegas que faziam o mesmo percurso não iam, eu também não. Chamei a isso a minha bengala.

A isto chama -se evitação , evitava tudo o que podia suscitar agitação, nada de centros comerciais, hiper mercados, multidões, cinemas, restaurantes ….enfim qualquer sítio do qual possamos sair de rompante.

Nessa altura aparece aquilo a que chamo músculo, sim a nossa força é como um músculo e senão for trabalhado definha, encolhe. Resumindo, a minha zona de conforto era cada vez menor e a de confronto cada vez maior, inversamente proporcional. Passei a ter medo do medo do medo, surgiam novos medos, não conseguia comer por causa da ansiedade em que estava, deixava a comida no prato com medo de me engasgar…Quase desisti.

Foi o amor e compreensão da minha mãe, infinita paciência, conjugada com fármacos e exposições graduais às situações que geram medo que ajudaram a ultrapassar esse purgatório.

 A palavra distância passou a ser conotada com dor.

Qualquer lugar está mais longe e demora mais tempo do que a distância que tem que se percorrer.

 Aprendi lugares comuns genuínos, devagar se vai ao longe, através de psicoterapia comportamental.

Aprendi sozinha por instinto a fazer relaxamento , com contracção e relaxamento dos músculos, articulado com respiração profunda faz verdadeiros milagres.

Aprendi que uma crise de pânico acompanhada por alguém  é bem pior do que quando estamos sós, apercebemo-nos que não existem bengalas e só podemos ser nós a vencer esta guerra.

Aprendi a desafiar o medo, a incitá-lo..

Aprendi que  dar ordens a mim própria, antes e durante as crises ajudam muito (TU VAIS CONSEGUIR! ESTÀ TUDO BEM! Mesmo que seja ofensivo.. ÉS UMA MULHER OU UMA COBARDE.

Aprendi que quando se ultrapassa um obstáculo que julgávamos incontornável. Nos dá tanta força, alegria e exemplo para liquidarmos o próximo desafio.

Aprendi que ninguém morre de ataques de pânico.

 Tinha centenas de histórias para contar, mas não me vou alongar.

Sou uma mulher corajosa de 47 anos e sinto-me feliz, hoje sou mais forte, conforta-me saber que quem padece deste mal, nos dias de hoje tem informação sobre o assunto, tem apoio e mais rapidamente ultrapassará, com menos passos.

 Estou bem, será que posso ajudar alguém????

M.A. 2013

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